Não gosto de futebol. Nem de frio. Nem de passar o domingo em casa. O primeiro me causa arrepios de pavor por ver um homem sereno como o Digitador se transformar em um animal raivoso. O segundo me provoca arrepios. Ponto. E o terceiro me passa uma sensação de desperdício, pois lá foram existem tantas coisas para cheirar e tantas amizades por fazer.
Mas sou obrigada a reconhecer que, somados, futebol, frio e domingo em casa podem resultar num dia absolutamente legal. Veja só.
Depois das carícias matinais, do café com leite e do jornal, o Digitador ligou a TV e se esparramou no sofá. Começou um jogo de um time de camisa amarela. Estranhei, pois, preferencialmente, ele gosta de ver partidas de uns caras vestidos de branco. Como as veterinárias que cuidam de mim.
De repente, o locutor gritou gol. Como sempre faço, saltei para fora do sofá, esperando o rugido enlouquecido do homem. Alguns berros vinham da vizinhança, mas ele permaneceu relaxado. Ao ver o meu ar de dúvida, esclareceu: “Fica fria, bebê. É jogo da seleção!”.
Então eu criei coragem e me aninhei confortavelmente. Repousei a minha cabeça e a pata esquerda sobre o peito do Digitador. O resto do meu corpo se acomodou na barriga dele. O toque final foi o braço dele sobre mim. Adoro isso: calorzinho e relaxar ouvindo um coração batendo.
Com algumas pausas para comer ou para mudar de canal, pouca coisa se alterou. Era ele sentado e eu estirada sobre ele. Por vezes, rolava um afagozinho na minha cabeça. Em outras, eu era segurada pelas axilas e recebia uma leve massagenzinha no peito e no pescoço, o que sempre me arranca bocejos e provoca risadas nele.
Terminou a partida dos homens de amarelo, veio outro jogo e, depois, um filme [ND: “Forrest Gump”], que arrancou umas lagriminhas do Digitador. E assim o dia foi ficando pra trás, a noite veio e, agora, estamos nos preparando para dormir.
Isoladamente, vou continuar detestando futebol, frio e ficar em casa. Mas sou obrigada a dar a pata a torcer: esse domingo foi um dos dias mais felizes da minha vida.
Um beijo,
Clê